A cidade

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Antes do tempo, esteve
submersa esta paisagem. Mar
era a atmosfera, e lentos
como peixes os pássaros. Chovia
sempre, e sempre a se derramar
a água formou rios. Sonolentos.
A terra, eterna, se deteve.
Mas ainda no tempo diluvia.
E uma cidade surge, feita
de nuvens, como as nuvens, no ar.
Uma cidade a se continuar -
e em si, diversas. Sem substância.
Para quem vê, à distância,
a cidade, perfeita
na sua construção, surgir
do nada, ainda enevoada:
parece o mar fugir.
Mas ainda no tempo diluvia.
E uma cidade surge, feita
de nuvens, como as nuvens, no ar.
Uma cidade a se continuar -
e em si, diversas. Sem substância.
Para quem vê, à distância,
a cidade, perfeita
na sua construção, surgir
do nada, ainda enevoada:
parece o mar fugir.
E desde que se retirou
daqui, o mar, submersa, sob
as nuvens, e sobrevoada
apenas – úmida, apesar
da luz – por pássaros sombrios,
jaz a paisagem. E à distância,
longe, onde o atirou
deus, o horizonte. Sempre soube
a terra, que em sua substância
havia altura, e eram frios
os céus incólumes. Pesar
dos pássaros, o azul. Tristeza
a solidão, e nostalgia
a vida. Com certeza
nesta paisagem (pois
submersa, o mar a protegia)
viveram seres sobrenaturais.
Porque foi mar. Depois
de tanto tempo, os litorais
ainda estão onde estiveram.
E é insular esta cidade.
Com ruas que se detiveram;
e nas casas, lugar
para a paisagem. Devagar
a erguemos, com capacidade
para conter o dia.
surge a cidade, feita
de luz, onde se escondia.
E antes de ser, já é: perfeita.

Octavio Mora, poeta natural do Rio de Janeiro.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.

 


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