17 de janeiro de 1959

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários


Foto: Arquivo Público do DF


Brasília pára pela primeira vez e acompanha o enterro de Sayão.

À beira do túmulo, JK faz discurso comovente:
"É o Brasil que está de luto. Perde-se um líder carismático, símbolo de força e coragem. Um ídolo da peonada, herói do desbravamento, semeador de obras, cidades, estradas, sonhos…"

"Ele que dissera uma vez que o clima de Brasília era tão bom que precisavam um morto emprestado para inaugurar o cemitério, iria inaugurá-lo"
Frase da filha de Bernardo Sayão, Léa Araújo de Pina

Discurso do Presidente da República
"Aqui vim dizer adeus a Bernardo Sayão morto no campo de honra, morto na batalha em favor do novo Brasil. Mas a glória começa exatamente na hora em que ele deixa este mundo. Até então nós todos que com ele lidávamos, sabíamos que era um trabalhador excepcional, homem de fé e de energia fora do comum; sabíamos que não media sacrifícios para tornar maior e mais forte este pais. Hoje, seu nome se inscreve na legenda; é um dos heróis da nacionalidade. Só nos consola de sua perda essa glória que começa a iluminar, agora, o vulto que acaba de consumar o seu sacrifício até a mais trágica conseqüência.
Pode-se dizer que Bernardo Sayão fez a oferenda de sua própria vida ao seu ideal.
Era o comandante da batalha que desencantará a Amazônia de sua prisão, que virá retirar da pré-história tão grande, tão obscura e tão importante zona de nossa Pátria. Morre de pé, no meio das últimas resistências da floresta imensa, quando o termo dos seus árduos trabalhos estava à vista. Quem o feriu foi justamente uma dessa numerosas árvores que ele teve que abater para que o Brasil abrisse o seu mais difícil caminho.
"No dia em que a estrada Belém-Brasília estiver concluída, posso partir para sempre. Terei dado o meu melhor esforço pela nossa causa", disse-me ele mais de uma vez. Caiu num golpe fatal, vibrado por toda a selva, através de um dos seus gigantes vegetais. Foi uma vingança da natureza na pessoa desse bandeirante moderno, desse desbravador incomparável.
Dentro de quinze dias, os tratores que marcham conduzidos pelas turmas de soldados do progresso que partiram de Belém e de Brasília se encontrarão para consagrar o fim da epopéia. O grande, o generoso, o bom comandante estará então presente como nunca, embora invisível.
Ele não faltará ao encontro marcado. Nós também não lhe faltaremos. A estrada, uma das vias de libertação e da grandeza de nossa nacionalidade, terá o seu nome. Todos o amavam, todos os seguiam, todos estão dolorosamente surpreendidos e tomados de consternação neste momento.
Mas Bernardo Sayão não deve ser chorado. Um homem deste porte, morto como foi, de forma tão cruel e ao mesmo tempo tão bela, deve ser exaltado.
Quando um homem assim encontra o seu prêmio, morrendo em plena peleja, na véspera da vitória, o que se impõe é segui-lo além do tempo, redobrar os esforços, ser fiel ao que ele desejava, à sua aspiração, ao seu martírio.
Nunca terei sido intérprete mais exato da alma brasileira do que ao inclinar-me diante dos despojos deste herói, vencedor da marcha mais áspera em que se empenha a tenacidade obstinada do nosso povo, no seu desejo de penetrar a solidão ínvia.
A todos os que aqui se acham e a todos os que me ouvem neste instante, quero anunciar que, dentro de duas semanas, a missão que custou a vida a Bernardo Sayão estará integralmente cumprida. E que outras missões serão levadas a cabo.
É que o espírito deste destemido patrício que a terra de Brasília acolhe agora para um justo repouso, nos servirá de flâmula, de iniciamento e de  fonte de ânimo criador.
Que Deus guarde em sua paz este homem, semente da Pátria de amanhã, que ele ajudou a erguer, (Inscrito nos Anais da Câmara dos Deputados, a pedido do Deputado Gustavo Capanema. 21/1/1959)
(Transcrito da revista "Brasília", da Novacap, edição de janeiro de 1959, número 25)

 

 


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