11 de novembro de 1957

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11 de novembro de 1957
  Por Manuel Mendes

 
Inicio este livro com uma data. Data que marcou uma passagem decisiva de minha vida. (…)
Era uma tarde quente, característica do verão no Planalto em um dia sem chuva. O céu de um azul impressionante, salpicado aqui e ali por grandes pedaços de nuvens brancas e brilhantes.
Desci do DC-3 meio cambaleante, depois de uma viagem que começara às sete da manhã, no Santos Dumont, Rio de Janeiro, com passagem por São Paulo, onde trocamos de avião. O vôo não podia ser mais cansativo, com paradas em Uberaba, Uberlândia, Araguari e Goiânia, até chegar a Brasília que me pareceu, então, infinitamente mais distante do Rio do que é hoje, onde podemos ir agora em menos de uma hora e meia.
Eu fazia parte do segundo grupo pioneiro que o IPASE – Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado – mandava para Brasília. Neste segundo grupo havia mais três companheiros: Lineu Selos, Paulo Frederico da Costa Ferreira e Alfeu Gadelha. Este último, coitado, fez uma viagem horrível, pois começou a enjoar já no trecho Rio-São Paulo. Em todo o percurso permaneceu enrolado em um cobertor, sem falar e, praticamente sem se mexer.
O tempo por vir iria mostrar, aliás, que daquele nosso grupo de quatro o Gadelha seria o menos feliz. Poucos meses depois de estarmos em Brasília, ele sofreria um fratura complicada no pé, num acidente de jipe, obrigando-o a usar muletas por muito tempo. Viúvo, deixara uma noiva no Rio, com quem se casaria um ano depois, trazendo-a para Brasília. Em dezembro de 1962, uma semana antes do Natal, sua esposa tomou ônibus para ir ao Rio, juntar-se à família. Gadelha iria depois. Era época de muita chuva e a viagem noturna. O rio da Prata, transbordando, arrancara o vão central da ponte, na recém inaugurada rodovia Brasília-Belo Horizonte. Com a chuva e o escuro, o motorista não percebeu, a tempo, que faltava um pedaço da ponte e caiu nas águas. Morreram dezenas de pessoas, entre elas a segunda esposa do nosso colega Gadelha que passou dez dias de ansiedade, sacrifício e sofrimento, ao lado do médico Rômulo Maroclo, praticamente morando às margens do rio com as turmas de resgate, sem que o corpo da mulher jamais tivesse sido encontrado.
Mais feliz foi o sr. Pedro Teixeira, hoje titular do Cartório de Títulos e Protesto e um dos passageiros daquele fatídico ônibus. Ele conseguiu sair por uma janela e ficou preso a uma galhada de paus, até ser encontrado na manhã do dia seguinte.
Mas, tudo isso, no momento, estava longe de nós, fazia parte daquele futuro que Deus, em sua infinita sabedoria, esconde-nos. O que sabíamos é que estávamos ali, na escada do DC-3, onde fomos efusivamente recebidos pelos nossos colegas do IPASE que estavam em Brasília há alguns dias. O entusiasmo e a emoção com que fomos recebidos pareceram-me, na ocasião, exagerados, pois alguns tinham os olhos rasos d’água e, afinal, éramos apenas colegas de um mesmo Instituto, sem maiores laços de afeição. Alguns dias depois eu iria compreender a razão dessa alegria incontida – a imensa solidão em que vivíamos naqueles primeiros dias transformavam a chegada de alguém na vinda de um irmão há muito esperado. Brasília era o fim do mundo!
Trocados os abraços, feitas as perguntas próprias das circunstâncias –  E já agora com o Gadelha mais animado, talvez pelo calor da recepção – atravessamos a pequena estação de passageiros do aeroporto, onde apanhamos nossa bagagem. Lá fora uma dezena de jipes, marcados com grandes letras das siglas dos diversos institutos a que serviam.
A terminal aérea era uma força de expressão. A pista, a mesma que hoje utilizamos, então um pouco mais curta, era boa. A estação de passageiros, a primeira de Brasília, naquela área, era um simples barracão de madeira, na extremidade norte da pista, na área onde hoje está instalado o VI Comando Aéreo Regional.
O barracão era retangular, bem construído e com piso de cimento. De um lado, os boxes para atendimento dos passageiros, uma área livre ao centro, para circulação e que abria para o pátio e para a pista. Na outra extremidade, um bar e restaurante, um dos recantos mais acolhedores de Brasília de então, não apenas pela qualidade da comida, limpeza do ambiente, mas pelo "whisky" contrabandeado via Belém, por preços bastante acessíveis. Havia ainda a gentileza do concessionário, um pioneiro que ficou conhecido de todos como Laurindo de Araxá (Lauro Santos).
Ao lado de tudo isso, o aeroporto era, em 1957, o único local onde se podia conseguir jornais, tirados dos aviões, e encontrar gente vinda do Rio e de São Paulo, trazendo novidades. Ainda que as pessoas que chegassem fossem estranhas, eram gente – e gente era o que a gente queria ver, para afugentar a solidão. Por tudo isso formou-se um pequeno grupo que freqüentava o aeroporto, nos finais da tarde e que ficou conhecido como "AFA" – Associação dos Freqüentadores do Aeroporto – um dos primeiros clubes de Brasília, constituído pelo processo natural, sem estatutos e sem taxa de freqüência, mas com distintivo e tudo.
A maior parte da "AFA" era formada por engenheiros e constituída um clube essencialmente masculino, com honrosas exceções, como a nossa amiga Talita Aparecida de Abreu, que chegou a Brasília em 1957, como Tesoureira do IAPETEC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas) e se transformaria depois, com a fundação do "Correio Braziliense", em abril de 1960, na primeira colunista social da nova Capital, sob o pseudônimo de "Katucha" que todos conhecem.
Vale lembrar aqui que a fundação do Cota Mil Iate Clube nasceria, depois, de um grupo da "AFA", composto dos engenheiros Teodoro Bayma de Carvalho (Cavalcanti Junqueira) e Gilberto Scarpa (Estacas Franki) e da própria Talita de Abreu, e dos senhores Walter Galante e Obdego Batista.
Foi esta terminal, pequena, movimentada apenas nas horas de partida e de chegada dos aviões – raros então – que encontrei naquela tarde ensolarada de 11 de novembro de 1957.
Já no pátio, olhei em torno. Nada. Silêncio. Dois carneiros tranqüilos. Céu azul. Nuvens brancas. Horizontes amplos e o cerrado igual por todos os lados. A cidade era ainda um sonho, uma vaga esperança.
Duas estradas de terra partiam do pátio do aeroporto e se perdiam no cerrado mais na frente. Uma seguia à esquerda, em direção dos acampamentos da NOVACAP (Companhia Urbanizadora da Nova Capital) e da Cidade Livre; a outra, um pouco à direita, ia para o Plano Piloto, passando pela altura dos atuais QI e QL 4 e 5, alcançando a área da Embaixada da Espanha, depois de atravessar um pequeno córrego, por uma ponte de toros, na altura da atual ponte número 2, até alcançar o Plano Piloto, passando pelas Embaixadas da Áustria e do Japão, atingindo as quadras 407 e 207.
Logo que deixávamos o pátio do aeroporto e tomávamos essa velha estrada, uma grande placa, em forma de seta, apontando para o Plano Piloto, lembrava a polêmica que a construção da cidade desencadeara – "Brasília – alguns contra; muitos a favor: todos beneficiados". Na verdade a placa era otimista, pois, na ocasião, o correto seria dizer: muitos contra e poucos a favor!
Quero me deter um pouco mais na impressão que senti naquele primeiro dia. Não fora fácil para mim decidir aceitar o convite que o Dr. Irineo Jofilly Neto me fizera, no IPASE,  no Rio de Janeiro, onde eu trabalhava como Encarregado da Seção Imobiliária, para vir para Brasília.
Conhecia o Dr. Jofilly Neto há algum, pois,  minha Seção pertencia à Divisão que ele chefiava no IPASE. O Dr. Jofilly fora nomeado, naqueles dias, para integrar a Comissão Especial de Obras em Brasília, conhecida pela sigla "CEOB’. Os outros membros da Comissão eram o engenheiro Levi Furtado e o Dr. Glauco Lessa, que seria, anos depois, já com Brasília Capital, Diretor do DASP e Ministro do Tribunal de Contas da União.
 
Reproduzido do livro "Meu Testemunho de Brasília", de Manuel Mendes

 


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